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Responsabilidade de um escritor: romantizando crimes

Romantizando crimes

Devemos consumir livros romantizando crimes como estupros e sequestros, ou devemos discutir sobre o assunto entre os escritores e leitores? Compreenda melhor qual o posicionamento os escritores podem ter sobre esse assunto.

Em um dos grupos de escrita da qual faço parte, houve um debate sobre esse assunto. Tudo gerado por um membro ter compartilhado a capa de um livro, cujo título envolvia o apaixonamento pelo sequestrador.

Imediatamente as respostas dos demais membros foi fervorosa, mostrando receio e decepção por ter um colega escritor que, aparentemente, romantiza tal relação.

Se você não compreender o motivo de isso ser um assunto discutido com tamanha seriedade, continue a ler esse post.

Qual o dever e responsabilidade de um escritor

Uma coisa que devemos deixar bem claro é que o escritor não tem que falar de nada. Hoje em dia temos muitos assuntos sendo abordados na sociedade, principalmente envolvendo etnias e sexualidade.

Porém, os escritores não são obrigados a escrever todos os seus livros sobre esses assuntos.

Só que isso é diferente quando falamos de romantizar determinados temas como crimes do nível de sequestro, e crimes sexuais.

Tudo isso é bom senso na hora de criar uma história.

Não são todas as pessoas que irão “passar mal” ao ler uma história, não são todos os leitores que vivenciaram algo que gerou um trauma em sua vida. De fato, não são todos.

Mas há aqueles que passaram. Por isso é interessante um aviso no livro, para conscientizar o leitor do tipo de conteúdo que ali irá encontrar. Há muitos escritores que falam não precisar disso, mas na verdade o ideal é avisar para que o leitor não reaja com processos burocráticos.

Somos responsáveis pelo o que escrevemos, e isso é fato. Só não podemos ser responsáveis pelo o que todos os leitores sentem, pois é fora de controle.

Entretanto há duas coisas que devemos nos atentar. Vamos entender melhor?

Abordagem de tema para torná-lo discutível

Se você quiser abordar sobre um tema como aborto, sexualidade, preconceitos entre etnias, violência domiciliar, e até mesmo sobre pautas políticas, é seu direito. Porém, deve estar preparado para os olhos atentos que irão ler suas linhas.

O escritor deve ter tato para abordar esses temas, e seria muito interessante usá-lo para ensinar algo aos leitores.

Aqui no blog sempre falo do livro Easy da autora Tammawa Weber, que tem como tema central o estupro. A partir da narrativa romântica, ela mostra algumas situações que podem ser consideradas estupro e quais medidas as mulheres podem tomar.

Essa foi uma forma de ensinar às leitoras sobre o estupro, de uma maneira criativa e não muito teórica. Como o assunto pode ser evitado por muitas mulheres, a narrativa se torna um meio chamativo.

Ou seja, o uso da narrativa para repassar informações de maneira lúdica e de fácil compreensão.


Leia também: Conheça Easy da autora Tammara Webber


Romantizando crimes não condiz com a realidade

Nem todos os livros são passíveis de se viver. Quem dera, pois assim muita gente estaria em Hogwarts.

Porém, isso não se aplica aos livros fazendo romantização de crimes.

Se você não sabe o que é isso, entenda é o ato de tornar um crime algo típico de contos de fadas. Como se fosse algo bom, que as pessoas devessem esperar em suas vidas.

Hoje em dia isso é muito fácil de ser notado com os livros hot, da qual já fiz um post comentando sobre. O protagonista masculino que exala uma sensualidade imaginária, é O cara falando e transando. Na hora de descrever a personalidade desse tipo de personagem, escritores e roteiristas acabam trazendo traços como possessividade, obsessão, e até mesmo violência contra a mulher.

É o caso do filme 365 dias da qual muitas mulheres adoraram, mas não se deram conta de que o contexto da história, por si só, é algo questionador. Afinal, a protagonista foi sequestrada.

Se os escritores conversarem com um grupo de pessoas que já tiveram uma situação de estupro, sequestro, violência doméstica, ou que apenas se relacionaram com homens de personalidade abusiva, garanto que a fala delas não terá nada de encantador.

A realidade é cruel.


Leia também: Livros hot – o que devemos esperar dos leitores?


Pensando do ponto de vista da realidade

Ser levado por alguém que não conhece é o suficiente para gerar pânico. Uma pessoa que ameaça sua vida, em um assalto, é o suficiente para gerar pânico. Você andar na rua, e ter apenas a sensação de estar sendo seguida, é o suficiente para gerar pânico.

Somos seres medrosos, pois temos noção de que nossa vida é frágil. Qualquer coisa pode tirá-la.

Ter a noção de que a pessoa que nos ameaça pode tirar nossa vida, não é algo que te deixará calmo. Muito bem pelo contrário.

Nunca irá desejar passar por algo assim, pois ninguém gosta de sentir medo, de ter sua vida sob o controle de uma pessoa fria.

Por isso que essas temáticas cabem melhor em romances policiais, onde essa versão é mais voltada para o real e não engana os leitores.

“Mas é só um livro, as pessoas vão saber que isso não é real”.

Por incrível que pareça, não.

Exemplos de relacionamentos abusivos em filmes

Esse é o melhor exemplo para você entender que não são todas as pessoas capazes de fazer a diferenciação da realidade e a fantasia.

Nos últimos tem crescido no mercado cinematográfico filmes que trabalham com o romance mais sensual, onde o apelo sexual é forte. Muita gente gosta desses filmes, nada contra. O problema é a forma como o fazem acontecer.

Anteriormente citei o filme 365 dias, da qual muita gente gostou justamente por causa desse apelo sexual. O fato do personagem ter sequestrado a protagonista pode ter servido para gerar aquele “romance proibido”. Sendo algo “errado” aumenta a excitação do público, acredito eu.

Porém, o foco é tão grande na questão sexual, que ninguém para e presta atenção no contexto em que a história se passa. E então tudo se torna uma aventura que várias pessoas anseiam ocorrer consigo.

Sinto muito, meus leitores, se você encontrar alguém que te force a se apaixonar e a ter relações sexuais, eu duvido muito que vá gostar. Você não irá agir como a protagonista do filme e dos livros, irá ter medo e achar que sua vida está prestes a acabar.

O que os escritores devem saber ao escrever sobre esses assuntos

Com certeza haverá uma parcela de pessoas que irão comprar seus livros e achar que tudo bem, pois trata-se de apenas uma história. Contudo, pode esperar pela avalanche de comentários carregados de dúvidas e questionamentos.

Você pode até dizer “precisa ler o livro pra saber do que eu estou falando”, mas somente a simples ideia é o suficiente para gerar muitas dúvidas.

E como dito anteriormente, hoje em dia as pautas sociais estão se tornando cada vez maiores. O número de pessoas discutindo sobre esses assuntos só cresce com o tempo. Lentamente essas obras que romantizam o errado entrarão para a categoria do cancelamento.

Por outro lado, torna o assunto discutível para expandir a consciência das pessoas acerca dos relacionamentos.

Viver perigosamente pode não ser tão prazeroso quanto na ficção.

Conclusão

Nós escritores devemos ter muita consciência sobre as histórias que contamos aos nossos leitores. A menos que nossa intenção seja a de educar e causar reflexão, romantizar crimes é algo duvidoso que causará mais alvoroço do que admiração.

Claramente que alguns leitores terão a mínima noção de que tudo é apenas uma história, e que não condiz com a realidade. Mas há aqueles que irão, e esse é o perigo, pois a sua história pode ser considerada culpada por algo.

Por mais que não tenhamos a responsabilidade por todos os efeitos que nossos livros causam em nossos leitores, sobre esse assunto, em específico, nós temos. Pois afeta a moral social.

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