Jornada do herói: técnica de escrita cíclica
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Jornada do herói: técnica de escrita cíclica

Se existe algo que auxilia os escritores durante o processo de escrita, esse algo é a jornada do herói. Nesse posto irei te explicar como e o que é essa técnica de escrita.

A jornada do herói, também conhecida como Monomito, desenvolvida por Joseph Campbell ao notar padrões comportamentais em certas histórias e mitologias. E para deixar claro, apesar do nome da técnica levar a palavra herói, não estamos falando do arquétipo em si. Eles até podem ser usados, e tem um papel na criação do monomito, porém o foco desse post não é trabalhá-los.

O herói retrata o protagonista seguindo um caminho com diversos arcos que o levam ao desenvolvimento. Tudo isso acontece durante sua jornada na história.


Leia também: Arquétipos na narrativa: como utilizá-los corretamente


O que é a Jornada do herói

Se observamos os filmes atuais, podemos perceber um padrão que os roteiristas seguem. O protagonista está vivendo sua vida comum, é chamado para algo, se desenvolve e conhece o antagonista, no clímax eles lutam e o protagonista apanha até dizer chega, e no final ele ganha do antagonista.

Ufa! Já haviam notado isso? Eu só percebi quando minha mãe começou a reclamar que o protagonista só sabe apanhar, pra depois arranjar uma força pra acabar com o vilão. Como quem diz “não poderia ter feito isso antes?”.

Não estranhem, faz parte da Jornada do Herói.

Joseph Campbell notou padrões cíclicos de comportamentos em histórias clássicas, inclusive na mitologia grega, que permitem ao protagonista o seu desenvolvimento. A sua reflexão foi tomando forma até ele escrever um livro sobre o assunto e ensinar á diversos escritores que eles também poderiam utilizar dessa técnica.

Sendo assim, a jornada do herói nada mais é do que uma técnica de construção de narrativa que a maioria dos autores utilizam.

Isso não significa que você também precisa usá-lo. Porém, é inegável que nos ajuda, e muito, á criar a estrutura de nossas histórias.

A jornada do herói

Atualmente temos dois modelos de Jornada do herói, uma é do próprio Joseph Cambpell, que segue 17 passos, e um outro criado por Christopher Vogler que segue 12 passos.

Não existe muita diferença entre ambos os modelos, á não ser que a original contém mais detalhes. O que você irá encontrar com maior facilidade é do Vogler, por ser mais enxuto. Esse é o modelo que muitos roteiristas usam para criar seus filmes.

Mas chega de enrolação e vamos falar de cada passo do Monomito. Sim, irei focar no modelo original.

Basicamente iremos seguir a estrutura dos 3 atos: partida, iniciação e retorno.


Leia também: A estrutura dos 3 atos


Primeiro ato – A partida

O protagonista está vivendo sua vida comum até receber o chamado para uma aventura. O primeiro ato costuma ser curto por retratar o começo da aventura, o começo da história.

Campbell delegou cinco passos que o protagonista segue antes de encabeçar de sua jornada.

  • O chamado da aventura;

O protagonista está vivendo sua vida comum até receber o chamado para uma aventura. O primeiro ato costuma ser curto por retratar o começo da aventura, o começo da história. Essa é uma ótima forma de apresentar o protagonista para o seu leitor.

  • A recusa do chamado;

Normalmente a jornada que está sendo proposta irá tirar o protagonista da sua zona de conforto. E ninguém se sente á vontade com isso. Ok, poucas pessoas realmente gostam de encarar desafios e expandir o seu mundo, e por isso é comum que o protagonista recuse o chamado de imediato.

Seja por ser arriscado demais, por não acreditar no que está sendo proposto, ou por realmente não estar interessado. Fato é, os protagonistas dificilmente aceitam a proposta com facilidade. É um momento de ponderação.

  • Auxílio sobrenatural;

Não estamos falando de espíritos vindo do além para empurrar o protagonista. O auxílio sobrenatural é o momento em que alguém aconselha o protagonista á aceitar sua jornada.

Em alguns modelos de monomito, é aqui que o velho sábio faz sua aparição (caso sua história tenha um). Uma conversa franca costuma ser o mais utilizado, onde o protagonista fala o que realmente pensa sobre o chamado e o velho sábio o coloca para refletir sobre seus ideais.

  • Passagem para o limiar;

Aqui o protagonista começa a vivenciar situações difíceis, podendo ser encaradas como desafios da jornada. São as primeiras provas que ele passa em sua jornada.

Dependendo da sua história, você pode colocar tais desafios como o tal auxílio sobrenatural.

  • O ventre da baleia.

Nesse momento, o protagonista se dá conta de que não tem volta. Agora que aceitou sua jornada, o seu mundo foi deixado para trás. Sua única opção é aceitar o que vem pela frente.

Essa parte pode ser feita como uma reflexão, ou usado com um gatilho. Uma situação que o faz perceber que agora ele se encontra em outro momento, nada apaziguador, e que vem desafios á frente que lhe são desconhecidos.

Segundo ato – Iniciação

Muito bem, agora damos início á grande parte do seu livro. Campbell colocou 6 tópicos á serem explorados no segundo ato.

  • Caminho de provas

Esse é aquele momento que o protagonista irá conhecer novas pessoas: seus aliados, amigos e inimigos. Lentamente ele vai entendo a situação em que se encontra, e começa a desenvolver de suas habilidades.

Claro que também haverão situações para testá-lo. Assim como o protagonista desconhece aquele mundo, talvez o mundo também o desconheça.

  • Encontro com a Deusa

Já esse ponto é preciso de muita atenção, pois ele pode ser usado de duas maneiras.

Na primeira, o protagonista conhece uma figura feminina que irá trazer aquela sensação de perfeição. A mulher que poderia ser capaz de guiar o herói. Não é necessário que essa figura feminina seja seu par romântico!

Na segunda maneira, essa Deusa poderia ser um objeto e não necessariamente uma pessoa. Sua função seria a de, justamente, guiar o herói.

  • A mulher como tentação

Aquela figura feminina vista anteriormente se torna um pesadelo. Não estamos falando de ela virar a casaca e se tornar a vilã. Mas sim, na transformação de algo que deixará o herói desconfortável.

Se estiver usando um objeto, talvez ele pare de funcionar ou passe a ter um funcionamento adverso, que deixará o protagonista por conta própria… para o próprio terror.

Podemos dizer que ele perde o seu apoio.

  • Sintonia com o pai

Essa é uma frase meramente metafórica, por conta da teoria freudiana da rivalidade paterna. Na psicanálise há a teoria da criança se apaixonar pela mãe e rivalizar com o pai, até o pai o castrar.

No caso, a castração permite o desenvolvimento da própria pessoa.

Aqui o herói irá se livrar dos demônios infantis, passando a buscar o próprio desenvolvimento. É como se deixasse o eu antigo para trás, correndo em direção do novo.

  • A apoteose

O desenvolvimento que vimos na etapa anterior dá ao protagonista a consciência do seu atual posicionamento. Ele tem noção das habilidades, e se torna capaz de apaziguar os seus dilemas sem precisar daquela ajuda sobrenatural.

Ele é forte e sabe disso.

  • A benção última

Muito bem, o herói passando pela transforma interna e externa, e por isso ele ganha uma recompensa. Alguns irão dizer que própria sobrevivência do personagem é uma benção, já outros irão sentir a necessidade de um objeto muito desejado seja dado ao protagonista.

Se você estiver trabalhando com itens lendários como espadas, feitiços e a própria imortalidade, agora é a hora de entregá-lo.

Terceiro ato – O retorno

Vamos para a reta final da jornada, onde Campbell nos trás mais 6 pilares.

  • Recusa ao retorno

Da mesma forma que no começo da jornada, o herói não queria partir, aqui se repete. O protagonista já se desenvolveu, terminou de sua jornada, porém há algo que o faz desejar não voltar para casa.

Ao retornar para casa, há a partilha daquilo que aprendeu, que também pode ser recusado pelo protagonista.

  • Fuga mágica

Há dois caminhos para o protagonista.

No primeiro ele retornará ao seu mundo com aquela recompensa garantida. E tudo segue em paz.

Já no segundo, o protagonista não teria o apoio do seu guardião. Ou seja, estaria retornando com a recompensa contra gosto de quem o guia. E isso pode gerar um ciclo de perseguição.

  • Resgate com auxílio externo

Existe aí um receio por parte do protagonista em terminar de sua tarefa. E assim como no primeiro ato ele recebeu o auxílio para partir na jornada, aqui precisará também, mas para retornar.

A figura que irá trazer o herói de volta não precisa ser uma pessoa em si, pode ser um acontecimento.

  • Passagem pelo limiar

Quando o protagonista retorna ao seu mundo, ele percebe uma certa ignorância. Afinal, o lugar e as pessoas ali não mudaram, apenas ele. Então o protagonista passará por uma readaptação.

  • Senhor de dois mundos

Como o herói passou por uma transformação, e sua mente se encontra em paz, ele pode transitar entre mundos livremente. E isso vai além de transitar de um ambiente para outro.

Lembre-se que o herói tem sabedoria para viver nesses dois mundos.

  • Liberdade para viver

Agora que o protagonista pode viver em dois mundos, isso dá á ele uma liberdade maior para escolher como irá viver. Como ele irá se adaptar á nova realidade, de acordo com o novo eu que foi esculpido nessa jornada.

Como utilizar a jornada do herói

Apesar de cada passo fazer sentido e parecer ligar-se um ao outro, Campbell diz que não é necessário seguir todos eles á risca.

O interessante é o autor deixar sua criatividade falar mais alto. Pegar esses passos e transformá-los em algo simbólico já é algo bom.

E é fácil perceber isso, uma vez que Vogler trouxe os doze passos. Ou seja, mesmo que algumas informações não apareçam, não significa que a história perderá o seu sentido.

Se você está começando a sua história, recomendo que após ter criado o cenário, personagens, estrutura de 3 atos, faça o monomito.

Recomendo o uso de planilhas, mas pode usar o que te deixar confortável, e comece colocando cada passo que acha pertinente para a sua história. Ao lado, descreva a sua ideia com detalhes. Se quiser já fazer as cenas em si, o faça!

Em seguida, parta para o método snowflake para ter em mãos a sua primeira versão.

Ou seja, gosto de utilizar a jornada do herói no processo de estruturação da história. Para entrelaçar ideias, manter a coerência e conhecer profundamente a história que desejo contar.

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