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História de Lady Alis: lendo uma fanfic para a classe

professora lendo fanfic na classe

Não tenho tantas histórias para contar, só que isso não significa que eu não tenha vivido algo com a minha escrita. Contarei à você uma pequena história do dia que minha professora de português, do terceiro ano do ensino médio, leu um rascunho de fanfic gay para os alunos da sala.

Surpreendente, não? Pois acredite, tudo aconteceu de forma natural graças à um dever de casa. Essa é uma das mais doces lembranças que eu tenho da minha escrita, pois foi algo tão grandioso que me motivou a continuar a escrever.

Irei contar essa história, ela não é engraçada, não é revolucionária. É apenas uma história.

Mas, antes disso, como alguns leitores do blog podem ser novos, vou contextualizá-los.

Fanfiqueira de ensino médio: o meu começo

Eu comecei a escrever em agosto de 2012, pelo gênero fanfics. Nessa fase da adolescência eu era (ainda sou) fã de um grupo de K-pop chamado Super Junior, e é claro que eu comecei a ler fanfics sobre eles.

Geralmente as fanfics são gays, e nem sempre elas estavam tão bem escritas. Entretanto, quando se trata de fanfic esperamos mais por um enredo envolvente do que uma escrita bem feita. De todo modo, eram histórias interessantes, engraçadas, algumas até dignas de livros originais para se vender em livrarias.

É claro que chegou um momento que eu quis escrever também. Foi aí que comecei a fazer as minhas fanfics.

Sendo assim, a história que irei contar foi no ano seguinte, 2013. E eu já tinha uma pequena base de leitores no site Social Spirit, o que me fazia ter o hábito de escrever todos os dias um capítulo novo para publicar.

Acreditem, eu tinha uma rotina de escrita. Na escola eu usava o recreio para criar os rascunhos das fanfics, quando chegava em casa ia escrever, dar uma revisada rápida e logo publicava. Como no ensino médio as minhas melhores amigas saíram da escola, acabei passando os recreios sozinha sentadinha no corredor, só escrevendo os rascunhos.

E aí veio esse dia.

Lição de casa e a preguiça

Não me recordo bem qual era o assunto da aula, se era crônica ou conto (um dos dois), mas lembro da professora dando a lição de casa falando que ao voltarmos para nossas casas prestássemos atenção em nossa volta para compor conto/crônica.

Tinha que ser algo realista, nada de fantasia. Então ela considerou o melhor a gente narrar o que via em nossa volta.

Eu só suspirei de preguiça, na hora. Afinal, meu retorno para casa não tinha nada, até as ruas estavam silenciosas. Aí eu iria escrever o quê? “Vi uma casa bege, uma de madeira, olha um cachorro passando na minha frente!”. Nada disso.

Acabei optando por não fazer o dever de casa. Já que não tinha nada de interessante para escrever, prefiro nem fazer. Então deixei de lado essa questão até a aula seguinte chegar.

Quando chegou o dia de entregar o bem dito dever, os alunos ficavam perguntando se um fez, aquela coisa de começo de aula. Porém a aula de português iria acontecer depois do recreio, então dava tempo de sobra para copiar alguma coisa (não façam isso).


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O hábito de escrever nos intervalos

Além de escrever no recreio, costumava aproveitar os intervalos entre as aulas para escrever. Se algum professor passasse tarefa e eu terminasse antes da aula findar, também passava o tempo rascunhando as fanfics.

Nessa época eu estava com um projeto de criar oneshot, história de capítulos únicos. Então seria uma fanfic repleta de histórias curtas, sobre diversos casais que os leitores pudessem gostar. E eu estava lá rascunhando quando veio a ideia de usar aquela fanfic como base para o dever de casa.

Na hora deu um nervoso, pois eu estava escrevendo sobre um casal gay. Como que poderia entregar aquilo para a professora? Vai achar que sou pervertida, ou sei lá.

Peguei o caderno de português e fui reler a matéria sobre o que era conto/crônica. O que era, o que compõem, o que não podia ter, li tudo o que havia anotado. Pasmem, eu poderia facilmente mandar o rascunho como dever de casa.

Recreio chegou, e eu tinha apenas alguns minutos para decidir se iria arriscar ou não. Acabei optando por arriscar, pois no fundo eu não queria perder a nota de dever de casa. Depois para recuperar, provavelmente, teria de fazer alguma avaliação e isso seria horrível para mim.

Passei os 15 minutos do recreio passando o rascunho da fanfic à limpo. Não coloquei nome dos personagens, obviamente, e fiz a narração em primeira pessoa. Coloquei meu nome e turma, pronto, dever de casa feito.

Agora era só entregar.

Na semana seguinte, veio o resultado

Lá vem a professora, arrumando o material para começar a aula. Fez a chamada e então retirou de uma pasta um amontoado de folhas e colocou na mesa ficando diante da sala.

Ela começou falando que encontrou histórias muito boas, que ficou contente por ver que a maioria da classe havia entregue o dever. Por isso, ela selecionou alguns textos para ler diante da classe.

Pronto. Comecei a ficar nervosa na hora. Rezei pra que meu texto tivesse sido o pior, pois não queria que fosse lido em frente da classe. Ele só tinha a função de garantir a nota de dever feito, nada mais! Cadê o respeito pelo limite do dever de casa? Isso existia na época? Queria meus direitos de privacidade em não passar vergonha diante dos coleguinhas.

E a professora pimpona lendo alguns deveres. Fazia elogios aos alunos e tudo mais.

Como era típico da época, as folhas de caderno tinham enfeites bonitinhos, coisas para diferenciar e se destacar no caderno básico. E eu fiquei de olho em cada folha que a professora remexia, só esperando que ela passasse direto pela minha.

Mas não. Ela o escolheu. E-L-A O E-S-C-O-L-H-E-U. Alis Green mirim ali jaz. Meu rosto esquentou de imediato, o desespero tomou conta. E agora?

Ela segurou a folha na ponta dos dedos, e olhou para mim. E eu sempre sentei nas carteiras da frente, justamente para prestar atenção nas aulas. Sendo assim, não tive nem chance de me esconder atrás de alguém.

Quando ela me olhou, deu um sorrisinho (que para mim foi a coisa mais diabólica) espreitando os olhos como se desse uma risadinha. A professora mexia a cabeça em uma pergunta silenciosa se poderia ler.

Óbvio que neguei com a cabeça, provavelmente com o rosto mega vermelho e as pernas tremendo de vergonha. Ela assentindo com a cabeça, e eu negando. Acredito ter negado com a cabeça uma centena de vezes.

E então ela me joga “seu texto ficou muito bom”.

Viu o golpe baixo? Ela elogiou meu rascunho.

Então deixei ela ler.

Sobre o que era o texto

Basicamente era um rascunho reflexivo. Era sobre um homem sentado no banco da igreja ponderando sobre os próprios sentimentos, pois havia recebido uma declaração de outro homem. E ele havia aprendido em sua família que a união homoafetiva era errada, não aceita. Mas dentro dele existia um sentimento que desejava corresponder a declaração.

E ele fazia várias ponderações sobre o assunto. Aceitar ou não, eis a questão. Até o padre tentou acalmá-lo e dizer para seguir do coração, mas isso era tão difícil de compreender.

No final das contas o rapaz toma a decisão depois de muito refletir.

Por mais que eu quisesse, aquilo era completamente errado. Era pecado ter de amar um ser como ele. o pior era entender e crer que todos á minha volta poderiam me condenar por causa disso.
Não pode um homem amar seu semelhante, de um jeito tão carnal. Que erro era aquele, que imenso pecado. Se ousasse pensar em seus lábios, poderia ter certeza de que uma vaga no inferno seria guardada á mim.
Suspirava, sentado no banco da igreja, me sentindo perdido. Escolhas deveriam ser feitas, porém para dois corações. Não sabia como lidar com aquele ser, cujo sentimento lhe é tão precioso e sagrado.
Como iria sair daquele mar negro? Estava me afogando em minha próprias duvidas. A negritude da água me impedia de ver a saída, a realidade. Isso me sufoca. Meu Senhor, o que devo fazer?
Nem se quer o representante de Deus na Terra, sabia me responder. O velho homem apenas sorrira tocando em meu ombro, dizendo “Siga seu coração.” Mas não entendia isso, como posso ouvi-lo?
Baixava a cabeça fechando de meus olhos, entendo que o medo me dominava. O medo de ser julgado, de ser violentado, de ser enganado, entre outros medos. Eles serviam de obstáculos para se chegar á uma decisão”.

Uma boa nota de dever de casa

Juro pelos céus, que minha alma saiu do corpo e foi dar uma volta para evitar os murmúrios.

Uma colega até me cutucou para perguntar “você passou por isso?”, e eu rapidamente neguei no maior desespero.

Foi então que a professora explicou para a turma que a crônica/conto não precisava, necessariamente falar de mim, mas poderia criar um personagem para aquela história. Só precisava ser narrado em primeira pessoa, e viver coisas reais e não fantasiosas.

Basicamente ela leu o meu texto por ser diferente dos demais. Os outros falaram do que fizeram em seu dia, e eu criei algo diferente, mas real. A indecisão de um homem e assumir a sua sexualidade.

Ganhei a nota cheia do dever de casa, devido a esse texto. Ganhei elogios da professora, não somente por ter feito a atividade, mas por conta da escrita mesmo.

Fui embora muito feliz, mesmo tendo passado vergonha.

Conclusão

Na época do ensino médio acabei me tornando uma pessoa muito tímida e introvertida com quem eu não tinha intimidade. Então para mim não foi vergonhoso o fato da professora ler o meu texto, mas de ter dito quem o escreveu. A atenção dos alunos viria para mim.

E eu não queria isso.

Mas se tem uma coisa que aprendi anos mais tarde, na faculdade, é que pessoas tímidas são um pouco narcisistas. Afinal, elas acreditam que todo o mundo volta sua atenção para ela, sendo que isso não acontece de fato.

E realmente, com exceção da coleguinha, o restante da turma nem se importou muito com o ocorrido. Ainda assim, fiquei feliz com o resultado e acredito que guardo o dever de casa até hoje em minha pasta de textos.

Moral da história: use seus rascunhos para salvar a sua nota na escola. Vai que sua professora é uma fanfiqueira também.

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