Como a bruxaria moderna surgiu

Como a bruxaria moderna surgiu

Seja bem vindo ao mundo da bruxaria! Para dar inicio aos seus estudos é preciso curiosidade em mergulhar no passado para compreender as variedades vertentes que regem o nosso presente.

Nesse primeiro post iremos falar da bruxaria em si, e espero que no final dele você tenha aprendido uma valiosa lição.

Porém, o que posso lhe dizer de primeira é que a maioria dos bruxos são pagãos. Sendo assim, é muito provável que na sua lista de temas á serem estudados tenha um tópico do paganismo, e agora entenderá o porquê.

Compreendendo o Paganismo

Quando falamos de paganismo, estamos nos referindo á uma cultura que antecede o cristianismo. E não é apenas uma cultura, mas várias que são antigas!

A palavra Pagão vem do latim Pagani ou Paganus, que se traduz como “habitante do lar ou da casa”, geralmente significando uma pessoa do campo.  Na República Romana, a palavra pagani teria o significado beirando “primo do campo“, sendo visto como inferiores ás pessoas da cidade. 

No Cristianismo a palavra pagão foi redefinida como alguém que adorava os velhos deuses e deusas, e que não adoravam seriamente o novo deus cristão. Outro significado é “um praticante de qualquer das religiões não-cristãs, não-mulçumanas ou não-judaicas, tipicamente possuindo uma doutrina, filosofia ou credo politeísta ou panteísta”.

O paganismo não pode ser considerado uma religião, mas sim um pilar central que engloba o modo de vida, os conceitos espirituais e filosóficos no qual todas as expressões religiosas focadas na natureza se apoiam para o desenvolvimento de seus fundamentos. 

Os estudiosos tem classificado o paganismo em três subdivisões:

– Paleopaganismo

  Termo usado para as fés tribais intactas centradas na natureza, encontradas na antiga Europa, África, Ásia e Américas politeístas. É praticamente inexistente na modernidade. 

– Mesopaganismo

  Série de movimentos organizados e não-organizados, com o intuito de reviver o Paleopaganismo, englobando elementos pagãos que se mantiveram vivos até a Idade Média.  Porém, foram fortemente influenciados pelos conceitos, valores e práticas de religiões monoteísta. 

– Neopaganismo

  Variedade de movimentos iniciados no anos 60, podendo ter raízes antigas ou não. Estão inclusos todos os que tentam criar, recriar, reviver ou continuar as práticas do Paganismo de diferentes culturas, eliminando os conceitos inapropriados, como visões monoteístas.  Pode ser considerado um movimento iniciado pela sociedade contemporânea para restabelecer a adoração á natureza. Como a Wicca. 


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A relação da Bruxaria com o paganismo

Em um tempo em que o homem não tinha tecnologia o suficiente para ajudá-lo no dia a dia, a conexão com a natureza era bem forte. É a partir da observação do sol e da lua que aprendemos os melhores momentos para plantar e colher, para sair de casa e quando descansar, observar estrelas para saber qual caminho seguir, e também aprender a influência da lua nos comportamentos dos animais, marés, etc.

Uma vez entendido o que se trata o paganismo, agora podemos saltar no tempo após a Inquisição. Afinal de contas, é durante nessa época que a palavra bruxa é denotada á quem seguia antigas religiões não-cristãs.

Até então ninguém se autodenominava um bruxo ou bruxa. A palavra foi ganhando uma conotação pejorativa com o decorrer do tempo, na medida em que o cristianismo ia crescendo. E então, chegamos em um momento em que a bruxa era ligada ao demônio.


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Se o paganismo não é considerado uma religião, a bruxaria era. Dizer que alguém é bruxo trazia á tona na mente das pessoas os preconceitos e demais características consideradas abomináveis. As pessoas já faziam a ligação de bruxaria á uma religião que prejudicaria os cristãos.

A origem da bruxaria neopagã

Depois da inquisição e do pensamento cientifico ter se propagado, iniciou-se uma discussão acerca da bruxaria e da possibilidade de ela ser uma religião pagã. Além disso, havia a constante discussão dos defensores do cristianismo e da bruxaria sobre quem estaria certo e errado durante a inquisição.

De um lado, haviam pessoas que culpavam a igreja pela histeria que tirou milhares de vidas durante séculos, enquanto do outro fomentavam que a postura da inquisição foi correta uma vez que a ameaça era genuína. Ou seja, de que bruxas pactuavam com demônios para corromper os cristãos.

A partir dessa discussão surgira a crença de que bruxaria medieval era uma vertente sobrevivente da cultura pagã pré-cristã. E por muitos anos, essa foi uma crença levada á sério, até ser considerada infundada pelos estudiosos.

Dentre o debate de quem é culpado, a figura de um acadêmico francês chamado Jules Michelet se tornou presente por suas polêmicas contra a igreja. Em seu livro “A feiticeira“, o francês conta que a bruxaria seria um fragmento pagão que se tornara um movimento de protesto contra seus opressores.

Em seu livro, Michelet ainda fala que a bruxaria seria o fragmento da religião pagã da fertilidade e adoração da natureza, nutrindo o espírito de liberdade pela Idade Média.

Contribuições para a bruxaria moderna

Outro autor que escreveu um livro tornando-se uma fonte de estudo para a bruxaria moderna foi Godfrey Leland. Em meio á suas andanças pela Itália, o autor publicou em 1899 “Aradia: o evangelho das bruxas“. Nesse livro, Leland apresenta um culto organizado de adoração à Deusa representado por Diana, denominando de “Religião Antiga”. Aqui encontramos o primeiro traço de uma figura feminina como divindade, e que tal religião teria se mantido preservada e transmitida para novas gerações.

Ainda diz que tal religião ainda era forte entre os camponeses italianos da época, descrevendo que era uma crença extremamente antiga. Aqui também se encontra o foco feminista que ganhara a atenção de bruxas modernas.

Continuando com a lista de autores que contribuíram para a bruxaria moderna, temos o nome de Margaret Murray. Ela havia dito que a bruxaria era, sim, esse fragmento de uma religião da fertilidade que antecede o cristianismo, porém acaba dando ênfase ao ciclo de nascimento-morte-renascimento. E dentre suas contribuições, encontramos as denominações “sabbat e esbat”.

Além disso, Murray argumentava que o termo “bruxaria” teria surgido durante a inquisição, justamente para designar á religião antiga de adoração á fertilidade e á natureza. Sendo assim, tal religião não era uma oposição ao cristianismo, mas acabou por se tornar um movimento clandestino de oposição.

Da forma como Murray descreveu esse culto, ele era baseado em antigas noções de polaridade sexual como a força propulsora por trás de todos os elementos da natureza – a interação macho/fêmea, positiva/negativa, que, em todos os níveis, origina a tensão energética que faz com que a própria natureza funcione.

Sendo assim, Murray dizia que a figura divina de tal religião poderia bissexual, tanto feminina quanto masculina, pois dependiam das circunstâncias. No entanto, a autora não fora levada á sério, tendo seus estudos e textos considerados errôneos.

A figura da Deusa da Wicca

Enfim chegamos á Robert Graves um poeta inglês que escreveu “A deusa branca: uma gramática histórica do mito poético“. Em seu livro, o autor afirmava que a poesia era utilizada como uma forma de tornar um mito os ciclos da natureza. Dessa forma, uma história dramática surge, do rei-deus que nasce, cresce, renasce em determinados períodos (estações do ano). Também é dito que tal rei-deus desejava a Deusa a venerando. Ela seria a natureza, abundância e a fertilidade.


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Fora Graves que retratou a Deusa em sua forma tríplice, simbolizada pelas fases da Lua que também a representa. Sendo assim, chegou-se á conclusão de que os covens eram liderados por mulheres.

“Ela era a jovem donzela da lua nova, a gloriosa dama da lua cheia e a anciã sábia do quarto minguante”.

O autor também enfatiza que a religião da Deusa foi suprimida pela religião patriarcal mais violenta á natureza, representando um declínio espiritual. Também decreta que tal religião seria um fracasso, pois a humanidade se tornaria madura o suficiente para trazer de volta a religião da Deusa.

Dentre seus acréscimos, Graves também trouxe a conexão com a lua e a importância do número 13, por haver treze meses lunares, um ano solar e um dia a mais.

A bruxaria como conexão ao natural

Há quem diga que a bruxaria em si se trata da reaproximação do homem com a natureza, desde respeito com o ambiente até aceitar a si mesmo.

Nesse caso, o natural ganha um lugar especial como sagrado e até mágico

Se remetermos á épocas antigas, onde o desconhecido era visto como algo mágico e até sagrado, então podemos pensar como que o sol e a lua, e ademais aspectos naturais pelos quais o homem não compreendia, entravam nessa visão. 

Sendo assim, se dizer bruxo é querer se reconectar com o sagrado, era agradecer e festejar juntamente com a natureza. Quando se aproximava o período de plantio, rituais voltados para a fertilização eram feitos, o mesmo quando o período de colheita chegava. 

“Tudo que existia era a observação do homem em seu dia a dia, vivendo em meio à natureza. Uma natureza com ciclos misteriosos, da qual cada ser era dependente. E como tudo – o Sol, a Lua, as estrelas e toda a natureza – era tão estranhamente mágico acabou se tornando sagrado” (Aline Lima).

O homem fazia rituais pedindo pelo retorno da luz e os frutos de seu trabalho. Porém, era essencial que houvesse respeito.

Com isso surgiram festivais tradicionais que são conhecidos como os sabbats (roda do ano), em que cada mudança da natureza é respeitada e homenageada pelos pagãos.

Podemos entender que essa foi a forma que o homem, incapaz de compreender algo que fora considerado como sagrado, arrumou para agradecer e demonstrar, de certa forma, uma “fidelidade” á crença. 

Bruxaria pede por responsabilidade

Dentro da bruxaria há o conceito da dualidade que acaba se entrelaçando com o natural, o sol e a lua, luz e sombra, dia e noite, logo o homem e a mulher. Chegamos ao ponto da crença em que o sagrado ganhou um mínimo de identidade, se tornando compreensível para o ser humano da época.  

Contudo, quando falamos de aceitarmos a dualidade, nunca iremos nos referir sobre uma bruxaria boa e má. Isso não existe.

Inclusive, uma ótima referência usada pelos autores envolve a explicação da faca. Com certeza vocês devem ter ouvido falar dessa analogia, que a faca é a apenas a ferramenta, quem decide se é pra cortar a cebola ou matar alguém, é você.  A mesma explicação se aplica na bruxaria. 

Ela por si só não é nem boa e nem má, ela trabalha com o duo, aceita ambos. Quem tem que ter o conhecimento de como manejá-la, e as consequências de seus atos ao usá-la para determinados fins, é o(a) bruxo(a). 

Conclusão

A bruxaria nada mais é resquícios do paganismo adaptados para a modernidade. Dentro da bruxaria, há religiões que se entrelaçam, inclusive cristãos que adoram a natureza.

Por conta disso jamais podemos dizer que a bruxaria é uma religião, assim como o paganismo. Afinal, há quem respeite e cultue a natureza sem acreditar em divindades. Podemos dizer que a bruxaria dá uma certa liberdade para você crer naquilo que irá te fazer bem.

No entanto, é de suma importância entender que a bruxaria pede imensa responsabilidade. Qualquer um pode ser um bruxo, basta querer e entender seus conceitos. Principalmente saber respeitar a vida.

2 Comments

  1. Que texto maravilhoso. Esclarecedor, libertador. Gratidão.

    1. É uma honra receber de sua gratidão! Espero que goste de outros artigos nossos.

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