Caça ás bruxas: compreendendo o marco histórico

Caça ás bruxas: compreendendo o marco histórico

No dia de hoje iremos conhecer um momento que marcou a história do paganismo, que é a caça as bruxas, também conhecido como a inquisição.

Vale lembrar que esse post irá abordar o assunto de forma histórica, portanto não irei expor minha opinião. O objetivo é entendermos como tudo aconteceu para que você mesmo possa interpretar e construir sua opinião. Desse modo, irei me manter neutra, ok?

Vamos lá!

O que as pessoas entendem pela caça ás bruxas

Se formos procurar em sites e blogs sobre a inquisição, iremos encontrar apenas o resumo de toda uma ópera. Foi um momento da história, entre os séculos XV e XVIII onde a igreja cristã proibiu, caçou, prendeu, torturou e matou pessoas consideradas hereges.   

Não se sabe exatamente a quantidade de pessoas que foram mortas, pois os registros são bem bagunçados. Segundo uma estimativa, cerca de 100 á 200 milhões de pessoas podem ter sido vítimas.   

Outro ponto histórico é que foi nesse momento que a palavra bruxa surgiu, para se referir á quem não seguia a religião cristã. Contudo, a bruxa era considerada uma seguidora do demônio, alguém que fazia o mal. Mais precisamente, mulheres que seguiam os demônios.   

Podemos afirmar que o maior alvo das perseguições dessa época eram as mulheres, principalmente as viúvas e solteiras que viviam fora da cidade, e eram consideradas pobres. Há quem diga que escravas também eram consideradas bruxas.

(…) a magia no período medieval era encarada de distintas formas: curandeirismo, misticismo, filosofia, poderes sobrenaturais, mágica, charlatanice, adivinhações, magias de boa sorte e de proteção, mas havia casos de que a magia também era usada para fazer o mal, e foi nesse ponto que a situação começou a piorar no século XIII e no XIV, desencadeando denúncias e processos (Kieckhefer apud Leandro Vilar).

O começo do patriarcado

Segundo alguns autores, antes mesmo dos cristãos começarem a caçarem as pessoas, já havia uma desestabilização entre a relação de poder entre o homem e a mulher. Isso porque o homem teria compreendido o seu papel na geração de uma vida, o que teria o empoderado á sair do papel que cumpria até então. 

Como até então a mulher engravidar era considerado sagrado e até divino, dizem que o homem sentia inveja da mulher por ter um papel tão importante. Na medida em que o tempo passa e ele descobre que ele contribui para a procriação, os papéis se invertem.   

Teria sido nesse momento que o homem mostra a sua força durante a caça, enquanto que a mulher, mesmo sendo curandeira, parteira, cumprindo seus papeis comumente, permanecia em casa. Dizem que essa inversão ajudou o homem á construir o patriarcado.   

Porém, isso tudo teria acontecido de forma natural, sem a presença – ainda – de outras religiões. Afinal de contas, levou muito tempo para que as pessoas que seguiam as crenças pagãs, mudassem e internalizassem as crenças cristãs. Foram anos, podemos dizer.

O motivo das mulheres serem acusadas de bruxas

O autor comenta no livro sobre a figuração do demônio. Por ser retratado como um anjo, ele poderia adquirir qualquer forma quisesse. Porém, no início das caças ás bruxas, houve um movimento que elevava o masculino e o sobrepunha no feminino.

Em alguns textos é falado sobre tanto o diabo quanto o Deus bom serem retratados na figura masculina, mesmo que ambos não tenham um gênero definido em sua totalidade. Mostra-se aí uma parte do patriarcado surgindo.

Como um dos pressupostos da bruxaria envolvia as orgias, diziam que o diabo poderia fornicar tanto com homens quanto com mulheres. Porém, dificilmente encontramos algum texto que retrate a homoafetividade nessa época. Sendo assim, se o diabo tomava a forma de um homem, ele fornicava com mulheres. Logo, a maior parte da população que teria pacto com ele, seriam as mulheres.

Momento histórico em que a caça começou

Esse combate somente começaria a se desenvolver no século XII, quando a inquisição foi estabelecida para investigar seitas heréticas, como o Catarismo e o Valdinismo, ambas situadas na França. Ainda assim, as inquisições naquele tempo não estavam interessadas em investigar se a feitiçaria seria algo ruim ou não. A realidade começou a mudar no século seguinte (Leandro Vilar).

Na primeira metade do século XV, no sudeste da França e no oeste da Suíça, houve uma reunião chamado de Concílio da Basiléia, na qual foi padronizado o que seria a bruxa, como alguém que se relaciona com o próprio Satã e tem como propósito desestabilizar os cristãos. Alguns nomes bastantes conhecidos na cristandade, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, surgem com discursos sobre a relação de uma magia diabólica que foram inspiradas no demônio.   

Em 1326, o Papa João XXII lançou a bula Super Illius Specula, gerando histeria em uma época em que acontecia a epidemia de Lepra. Gerou-se desconfiança de que muçulmanos e judeus teriam complô com os leprosos para tomar o poder envenenando os cristãos. Soma-se ainda a questão de nessa época de ocorrer a inquisição em alguns países da Europa.   

Podemos entender que por volta do século XIII e XIV cresceu o preconceito contra alguns povos. Sejam eles ciganos, estrangeiros, muçulmanos, judeus, mendigos eram expulsos de seus países. Tudo acontecia sob a acusação de uso maléfico da magia. Até mesmo a Ordem dos Templários, uma ordem militar respeitada na França, se tornou alvo do Rei Felipe IV e do Papa Clemente V. Sabe-se que o motivo poderia ser pessoal e político, porém as acusação foram religiosas para justificar a caçada deles.

Aprendendo a caçar as bruxas

Conseguimos compreender que já havia uma caça acontecendo, que era pequeno e foi crescendo com o passar dos séculos. Contudo, era necessário que alguém jugasse essas pessoas pela heresia cometida.   

É no século XIV que começam a surgir os manuais para os inquisidores, que iria guiá-los nos próximos séculos. Até então, apenas os tribunais religiosos é que faziam a caça e julgamento. O problema começou quando os tribunais civis entraram na jogada. No século XVI, a feitiçaria e a magia negra passaram a ser crimes civis, e isso dava autoridade para os tribunais comuns começarem á caçar as bruxas, mesmo que a ordem não viesse de um cristão.   

Nessa época, houveram debates religiosos e teológicos sobre o assunto, surgindo a ciência que estudaria os demônios, a demonologia. Ou seja, haviam documentos que estudavam os demônios.   

Alguns nomes desses “artigos” são: Flagellum Maleficorum (o flagelo dos que praticam o mal) lançado em 1462; Quastio de Strigis (uma investigação sobre as bruxas) lançado em 1470; Malleus Maleficarum (o martelo das bruxas) lançado em 1487; Formicarius lançado em 1475.   

Nesses documentos eram relatados o conhecimento que adquiram em sua caçada sobre o que seriam as bruxas, falando de forma mais aberta e objetiva. No último livro citado, há ainda a menção de grupos de bruxas que seriam conhecidas como “seitas de bruxas”.   

Foi então que em 1484 o papa Inocêncio VIII lançou a bula Sumis Desiderantes Affectibus, que seria um documento que oficializava a existência da bruxaria e que elas deveriam ser combatidas.

O martelo das Bruxas

(…) A bula pautava-se em cinco prerrogativas:

A bruxaria era real, e seus adeptos eram heréticos e apostatas (traidores da fé cristã), os quais passaram a servir a Satã;

As heresias deveriam serem exterminadas para que assim a boa conduta cristã pudesse prevalecer, guiando os homens para o bem e a salvação;

Autorizou que os inquisidores por quaisquer meios investigassem, julgassem e punissem os heréticos. Autorizava que os monges dominicanos Heinrich Kramer (1430-1505) e Jacob Sprenger (1436-1495), redigissem um manual para se explicar o que era a bruxaria e as formas de combatê-la;

Desconsiderou todas as afirmações que alegavam que a bruxaria não existia, e consistia em fanatismo, alucinações e superstições;

Exigia empenho dos inquisidores e clérigos que não pertencessem a inquisição, que pregassem a palavra de Deus por todas as igrejas e combatesse as heresias.

Foi então que Heinrich Kramer e Jacob Sprenger redigiram o que seria o livro mais replicado em todo o século, e o mais lembrado pelas atrocidades que carrega: O martelo das bruxas. O livro teria como objetivo principal explicar sobre a bruxaria e as heresias, ensinando o leitor á identificar, investigar e punir as bruxas.   

O livro também destacaram quais seriam os motivos pelos quais as mulheres eram condenadas por bruxaria. São eles: bruxas conseguem viajar de um local para outro com uso de magia; tem relacionamento sexuais com demônios; profanam os sacramentos da igreja; tornam pessoas e animais inférteis; arrancam o pênis do homem, ou o deixa imponente; transforma os homens em animais; matam crianças e as usam em ritos diabólicos; causam doenças ou morte do gado e plantações; causam tempestades e doenças em pessoas.

Período de caça ás bruxas

Apesar de sabermos que a igreja cristã ter sido um pilar central para esse feito contra as bruxas, começaram se espalhar entre os tribunais civis e a própria população o quão maléficos os bruxos eram. Ou seja, a população social ajudou á espalhar tais histórias, chegando ao ponto de quererem fazer a justiça com próprias mãos, caçando e expurgando as bruxas malvadas. Houveram caçadores que iam de cidade em cidade para explicar e incentivar o povo á caçar as bruxas, escrevendo livros que ensinavam suas táticas.   

Para que alguém fosse denunciado, haviam 3 categorias: a caça de pequeno, médio e grande porte. Basicamente o de pequeno porte se refere á uma pessoa acusada de fazer uso de magia negra, enquanto que a de médio é um pequeno grupo de 5 á 10 pessoas, e a grande porte… bom já podem imaginar. Podem imaginar que para conseguirem mais denúncias , eles faziam com que os acusados falassem os nomes de seus cúmplices.   

Já outra forma de caçada era a denúncia. Alguém fala que uma pessoa era suspeita de bruxaria por conta de seu comportamento estranho, não que necessariamente ela o praticasse. Á nível de curiosidade, se vissem uma mulher andando sozinha á noite, já diziam que ela ia praticar o sabá, ou então uma magia negra. Se olhar torto para alguém, era condenado.

Todas essas crendices reforçavam a se manter um clima de desconfiança nas comunidades, aldeias, vilas e cidades. Logo, boatos começavam a surgir e estes chegavam aos ouvidos das autoridades. Então o governo ou as igrejas decidiam agir”. (VILAR, 2015).

Provando a existência da bruxaria

Porém, havia momentos em que faltava provas e argumentos que comprovassem que o acusado era um bruxo. E aí vem a coisa mais… estranha. Existia uma coisa chamada ordálio, que basicamente era chamar Deus pra ser o juiz. Isso mesmo que você leu. 

Nesse caso haviam situações como colocar a mão em água fervente, andar sobre brasas, ser jogado no rio. Aquelas coisas que já sabemos, se a pessoa ficasse bem, era inocente. Isso tudo sob a premissa de que Deus não iria castigar quem falasse a verdade. Claramente que esse método passou a ser considerado irracional antes mesmo do ápice da caça.   

Um dos pontos mais conhecidos da caça é a tortura. É do pensamento comum atual, que os juízes fizessem uso da tortura sempre para conseguir a confissão que desejassem. Porém, estudiosos afirmam que a tortura só poderia ser usada em última instância, sendo que a acusada iria passar mais por uma tortura psicológica.   

Essa tortura psicológica seria de ameaçar a acusada que ela seria torturada caso não confessasse, na etapa seguinte era mostrar os equipamentos de tortura e até mesmo colocar a acusada lá, mas sem fazer absolutamente nada para, de fato, torturá-la. Caso a confissão não viesse, aí sim aconteciam as torturas.   

Segundo o que dizem, nem todos os países envolvidos na caça faziam uso da tortura. Uns mais do que outros, dependendo da situação. De qualquer forma, a tortura não era feita somente fisicamente, mas como também psicologicamente.

A acusação de um feiticeiro ou bruxo

Segundo o que o Russel e Alexander falam no livro “História da Bruxaria”, o medo sobre os bruxos ocorrem de acordo com o que o povo vive. Se há perigo interno ou externo, que deixe o ser humano sem nenhum controle da situação e provoque medo nele, então é provável que denuncie alguém como um bruxo responsável pela calamidade.

Na maior parte dos casos, poderia ter havido uma projeção entre o acusador e o acusado. Algo que existe em mim, que não quero admitir, projeto no outro afim de demonstrar conscientemente meu comportamento de repúdio. Nesse caso, podemos citar as acusações feitas por ciúmes e inveja durante a inquisição.

O autor ainda comenta mais á frente, sobre o mínimo de provas seriam necessários para que a pessoa fosse jugada, condenada e torturada. A projeção das acusações chegavam á um ponto, em que os próprios acusados acreditavam e confessavam ter cometido a heresia e bruxaria.

Isso tudo aumentavam e enraizavam os ideais. Se a pessoa acreditava e confessava, por que não acreditar?

Em todo caso, podemos notar que as acusações de bruxaria advém de culpar alguém pelas desgraças da vida. Se ficar doente, não poderá maldizer Deus ou então culpá-lo. Mas poderá fazê-lo com uma bruxa. E tirar sua vida, é uma forma de garantir que nenhum vingança mágica será feita, e que a vitima voltará a ser “feliz e saudável”.

Final da caça ás Bruxas

Da mesma forma como a inquisição começou, ela terminou: sem uma data e progressivamente. Entendemos que a caçada ás bruxas pode ter começado mais cedo em alguns países e mais tarde em outros. O apogeu desse momento foi entre o século XV e XVIII, sendo que em alguns países começaram a acusar mulheres de bruxaria por volta do século XVII.     

O que reforçou para que as denúncias começassem á diminuir foi diverso. Não se sabe ao certo o que ajudou cada país á retirar da lei a punição da heresia. Contudo, podemos fazer alguns apontamentos bem interessantes.

Primeiramente, a própria sociedade começou a achar que as torturas eram exageradas e desnecessárias. Levando em consideração que algumas denúncias eram feitas por inveja, ódio, preconceito, etc. começou-se a questionar até que ponto era necessário a tortura. Isso que nem comentamos a humilhação que os acusados sofriam, ficando nus em praça públicas.     

A própria sociedade começou a ter empatia por aqueles que estavam sofrendo, podendo ser inocentes das acusações. Isso faz a sociedade questionar a própria legislação.   

Seguidamente, entre o século XVII e XVIII começou a revolução  cientifica. As pessoas questionavam até que ponto a magia existia. Para os céticos, a magia era apenas charlatanismo, uma enganação, e que tudo isso teria ocorrido pela invenção dos clérigos fanáticos. Começaram a duvidas daqueles tópicos do Martelo das Bruxas, como transformar homens em animais, por exemplo. Há noção de que é fantasioso.     

Chegou-se ao ponto que o campo judicial também questionava, e os julgamentos se tornaram rigorosos pedindo por provas mais convincentes sobre o pacto com o demônio e uso de magia, e também sobre o uso da tortura.     

Com o passar do século a própria sociedade chegou á conclusão de que a caça ás bruxas não passava de fanatismo.

Fontes

Gente, deixo mega recomendo o artigo do Leandro Vilar, que fez um artigo cientifico muito fácil de ler e compreender sobre a caça ás bruxas.

Também recomendo “História da Bruxaria” – Jeffrey B. Russel & Brooks Alexander.

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