O que é Soma e Psiquê na bruxaria natural

Soma e psiquê na bruxaria natural

Iniciamos mais um mês, mais um assunto para estudarmos na bruxaria. E hoje serei um pouco mais filosófica. Se você torceu o nariz ao ler a palavra filosofia, já digo para repensar um pouquinho.

A filosofia é muito interessante, principalmente quando ela estuda os significados e simbologias. No instagram, inclusive, já falei sobre a simbologia por detrás do mito dos 12 trabalhos de Hércules e a simbologia da própria Lua.

Dentro da bruxaria, essa visão dos significados e simbologias nos ajuda muito a compreender ensinamentos deixados por nossos ancestrais. Os mitos dos panteões das quais seguimos são a ponta do iceberg. Afinal de contas, o que os mitos querem nos ensinar? O que os deuses representam?

Estudar a fundo essa parte mitológica é mágico, pois percebemos que está interligada com a própria natureza do ser humano.

Para isso irei começar com Psiquê e Soma. Não, não são personagens de algum mito… pelo menos um deles não é. A importância de se estudar esse tema advém da filosofia que encontramos em diversos mitos pagãos. Todos eles falam basicamente da mesma coisa: equilíbrio entre 3 elementos para que o ser humano possa se tornar divino.

Então, vamos começar?

O que é Psiquê?

Psiquê representa a alma. Em seu mito, é uma mulher de tamanha beleza, que era tão cultuada quanto a própria Afrodite (a Deusa da beleza). Só que Psiquê era uma humana comum, viva, não tinha nenhum outro atributo que a ligasse ao divino além de sua beleza natural.

O mito de Eros e Psiquê

Se você desconhece o mito de Psiquê, irei resumi-lo.

Eros, filho de Afrodite, iria flechar a garota para que se apaixonasse por um monstro, porém acaba por se flechar. Apaixonado, cria toda uma situação para que a garota se torne sua esposa, porém sem saber sua verdadeira identidade.

Após casados, Psiquê é influenciada por suas irmãs invejosas a verem o quão monstruoso era o seu marido, e matá-lo. Quando a garota espia o rosto de seu marido enquanto dormia, se depara com um homem de beleza divina. Ela se apaixona, porém Eros desperta furioso com a traição de sua esposa.

Psiquê fica arrasada e tenta reconquistar o marido, indo atrás da mãe dele: Afrodite. A deusa do amor não gostava de Psiquê, e por ter ferido seu filho lhe propõem tarefas difíceis para que desistisse.

Ao realizar cada tarefa, Psiquê recebe a ajuda para finalizá-las, até chegar à última tarefa que era pegar a beleza de Perséfone no submundo, porém sem espiar a caixa. Uma vez que consegue a dita beleza, Psiquê é tomada por curiosidade e espia a caixa, acabando por desmaiar e prestes a perder a vida.

Eros é quem a salva, e pede ajuda de Zeus para que a situação se resolva de uma vez por todas. Psiquê bebe ambrosia e se torna divina ao lado de seu amado Eros.

Refletindo sobre o mito

Nesse mito, Psiquê pode parecer uma mulher muito estranha e facilmente influenciável. Casa com um “monstro” que lhe pede para não olhar seu rosto, e obedece. Suas irmãs, cheias de inveja, a instigam a ver o rosto do marido, e ela obedece. Afrodite lhe impõem diversas tarefas, e ela obedece. Perséfone lhe diz para não olhar a caixa onde havia a beleza, ela não obedece.

É uma personagem que quando ouvimos sua história, nos questionamos o quão boba ela é. Ora essa, que frustrante não é mesmo?

No entanto, como já afirmei várias vezes, os mitos gregos falam apenas do protagonista. Somente ele existe naquela história, os demais personagens são diferentes aspectos do próprio protagonista.

Sendo assim, Psiquê passa por um processo de transformação inconsciente para ascender ao Olimpo, e se tornar divina. O mesmo ocorre em tantos outros mitos gregos.

Ou seja, olhar o mito como se fosse uma jornada da própria Psiquê que ocorre em sua mente, justifica o uso de seu nome na própria psicologia, não é mesmo?


Leia também: Eros e Psiquê – o significado dos enamorados


O que é soma?

Outra palavrinha ligada ao grego, que fala do corpo.

Quando falamos em soma, estamos nos referindo à carne, ao que é possível de tocar, o corpo todo. Não está ligado à consciência e a mente humana, isso é referido à Psiquê.

Já percebeu o uso da palavra “somatização”? É um termo usado para quando algo do psicológico afeta o corpo, gerando sintomas físicos. Quando você fica ansioso o dia todo por causa de um evento, e depois que o evento acaba que seu corpo entra em estado de relaxamento da tensão, aparece uma dor de cabeça insuportável.

É a psique entrando em contato com o soma.

Só nesse falatório meu, você deve ter percebido que soma e psiquê trabalham juntos.

Relação da Psiquê com o Soma

Existe a possibilidade de nossa Psiquê se apaixonar pelo Soma. Parece que estou falando de um romance trágico, e talvez até seja. Assim como Romeu e Julieta que, apesar de se amarem profundamente, acabam gerando a própria desgraça, assim ocorre quando a Psiquê se apaixona pelo Soma.

Afinal de contas, estamos falando da alma que se apaixona pelo corpo, cria um vínculo com ela.

Se você está tendo muita dificuldade em imaginar como que isso poderia ocorrer, eu te trago um mito grego muito conhecido: Narciso. Não é a toa que a palavra “Narcisista” tenha surgido desse mito, pois estamos falando da pessoa que trabalha a energia para si mesmo.

Comumente temos um relacionamento de troca, onde damos um pouco de nossa energia para o outro, e o outros doa sua energia para nós. A partir dessa partilha geram-se os relacionamentos, pois há o sentimento de retribuição.

Mas e quando fazemos completamente em nós mesmo? Somos narcisistas.

É esperado, na verdade, que um pouco de nossa energia seja voltada para nós mesmos. Mas é aquela coisa, precisamos do nosso amor e do amor do outro em algum momento. Nem que seja o amor de um bichinho de estimação.

No mito de Narciso, ele é jovem e bonito que atrai atenção de todas as pessoas, porém nunca havia se interessado por alguém. Até que chega o dia em que ele olha para seu reflexo. No momento em que Narciso se encara, é o momento em que a Psiquê se apaixona pelo Soma.

Narciso então começa a definhar, pois deseja ficar ao lado de uma pessoa que não consegue tocar fisicamente, somente pode admirá-la.

Um mito celta que fala de Soma e Psiquê

Os gregos não foram os únicos a retratar o soma e psiquê.

Por incrível que pareça, isso é muito comum em diversas histórias, só que você nunca percebeu antes. Em filmes e séries, é muito comum que seja dito dessa maneira.

Psiquê é retratada como uma mulher, pois ela é a alma.

Soma é retratado como um homem, pois ele é a força.

Sim, os romances geralmente trabalham nessa premissa onde o homem e a mulher se complementam. Inclusive, dizem que os antigos cavaleiros medievais costumavam amarrar em suas lanças os lenços de suas mulheres. Não por a amarem demais, mas por estarem levando consigo, ao campo de batalha, um pedaço de sua alma.

Poético, não?

No panteão celta também encontramos essa representação na história do Rei Arthur. Se estiver familiarizado com o enredo sabe que em dado momento, Arthur está para se casar com Guinevere, mas ela se apaixona por Lancelot. Os dois iniciam um caso, se não me engano.

Segundo alguns filósofos, o romance de Guinevere e Lancelot representaria a união da Psiquê e do Soma. Já Arthur seria a representação de um terceiro elemento.

3 mundos gregos – Soma, Psiquê e Nous

Dentro da filosofia existe algo chamado de 3 mundos gregos, que fala sobre diferentes aspectos que quando unificados forma um ser divino. Para atingir tal unidade, o homem deve se transformar e renascer ao atingir o equilíbrio dessas 3 pontes. Caso tenha se sentido perdido em relação à isso, não se preocupe, o mito de Hércules e do Rei Arthur contam essa história. Utilizarei a do Rei Arthur como exemplo.

Falei sobre Soma e Psiquê, e já mencionei a existência de um terceiro elemento. Estamos falamos de Nous que significa “campo espiritual“.

Sendo assim, temos:

  • Nous = campo espiritual;
  • Psiquê = campo da mente;
  • Soma = campo do corpo físico.

Na história do Rei Arthur, podemos distribuir três personagens nesses três mundos:

Nous = Arthur;

Psiquê = Guinevere;

Soma = Lancelot.

A relação dos três campos e o mito de Rei Arthur

Há um momento da história de Rei Arthur em que ele inicia um noivado com Guinevere, mostrando uma relação entre o espiritual e a mente.

Em dado momento da história, Lancelot e Guinevere se apaixonam perdidamente. Dentro da história é notável que há uma traição, os dois começam um caso. Entretanto, o que estamos vendo aqui é que a mente trai o espírito com o corpo físico.

Arthur tinha tudo unificado, tudo estava sob controle. Porém, uma vez que a relação extraconjugal se torna real, todo o reinado de Arthur começa a ruir. Veja bem, ao invés da mente compartilhar sua energia com o espírito, ela o faz com o físico. Não há um equilíbrio aí.

Para que o reino não desabe de vez, Arthur pede aos cavaleiros para irem atrás do Graal, que seria o novo objeto de unificação. Sarcasticamente quem consegue o poderoso objeto é justamente o filho de Lancelot.

Veja bem, nessa história não queremos dizer que Guinevere (psiquê) deveria ser fiel somente ao Arthur (espírito), e deixar Lancelot (corpo) para trás. Mas sim, de que o apaixonamento de Guinevere tornou Lancelot como prioridade ao invés de Arthur.

Ou seja, toda a energia e atenção da mente foi para o corpo ao invés de um equilíbrio. Os três precisariam se manter alinhados, e com a paixão avassaladora isso não foi possível, gerando toda uma ruína.

O que podemos concluir disso?

Podemos pensar da seguinte forma, sabe aquela história em que há uma pessoa tão apaixonada que ela faz de tudo por seu amado, independente se é certo ou errado? Pois é, isso é o que queremos evitar dentro desse pensamento filosófico.

Quando trabalhamos bem o nosso corpo junto da mente, conseguimos ter um espírito mais forte. Por isso que sempre digo para os bruxos iniciantes trabalharem bem os quatro elementos naturais, que são passíveis de serem aplicados tanto mental quanto fisicamente.

Lembra do pentagrama que nós bruxas usamos? O que significa a quinta ponta voltada para cima? Que com os quatro elementos em equilíbrio atingimos o quinto elemento, o éter/espírito.

Viu só como é importante trabalharmos tanto os mitos e histórias antigas para encontrarmos essas simbologias?

No caso da bruxaria, a lição mais básica são os quatro elementos que são a principal ponte de (re)conexão com a natureza. Aprendemos sobre a atuação deles em nossa Psiquê e Soma, seja através da astrologia ou qualquer outro meio de estudo. Se fazemos a mudança em um só, irá automaticamente refletir no outro. E então, quando nos equilibramos temos um Nous forte e sólido.

Não tornaremos Guinevere e Lancelot dois amantes, mas dois companheiros que irão trabalhar em prol de Arthur.

Links externos

Link da palestra da Nova Acrópole sobre Mito do Rei Arthur

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Sobre a autora

Alis Green

Uma bruxa escritora que é viciada em animes. Adora estudar sobre mitologias e história, como também gosta de ler romances regenciais. Quando aprende alguma coisa nova, sempre passa à frente em seus posts.

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