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O contar de uma história como uma técnica terapêutica

Mãe abraçando seu filho que chora, com o letreiro de uma técnica terapêutico: o contar de uma história

Mãe abraçando seu filho que chora, com o letreiro de uma técnica terapêutico: o contar de uma história

Vamos contar uma história? Ela precisa ter uma ordem, mostrando os fatos e as emoções de cada ocorrido! E este, é apenas o começo da técnica terapêutica.

Olá meus caros leitores!

Em um post recente, eu tinha falado sobre o uso de um diário como uma ferramenta de terapia. Isso porque ele permite que o paciente possa ter um espaço privado para se permitir escrever sobre seus sentimentos. Quando há uma escrita, a pessoa poderá sentir aquilo, aceitando o que a incomoda e refletir sobre possibilidades para dar a volta por cima do problema.

Mas pensando na criançada, o que poderia ser feito?

Estou lendo o livro “O cérebro da Criança” de Daniel Siegel e Tina Payne (da qual vocês já devem ter percebido que eu adoro os livros deles), e nele trás uma técnica que pode ser usada tanto com uma criança quanto para um adulto. É tudo uma questão de pararmos para pensar sobre o que aconteceu exatamente, como que nos sentimentos em relação a aquele evento.

Ora, uma mesma técnica para ser usada com crianças e também adultos? Sim, caros leitores. Lembrem-se, algumas pessoas podem ter uma idade adulta, mas a mente deles não. Algumas técnicas servem para todas as idades, e essa é uma delas.

Vamos contar uma história

Quando uma criança passa por um momento que a surpreende ou até mesmo dá um pouco de medo/traumas, ela pode ter a tendencia de contar o ocorrido diversas vezes seguidas. É comum, afinal de contas, ela passou pela primeira vez por aquilo, e por ser algo novo, não terá um repertório a qual acessar – em sua cabecinha – para saber como lidar com seus sentimentos.

Essas situações poderão envolver desde uma queda que ralou o joelho até um acidente um pouquinho mais grave. Outras situações podem ser mais complicadas de entendermos, como um exemplo que o livro trás de uma garota que antes adorava ir a escola, mas que depois de ter ficado doente na sala de aula, ela passou a ter ansiedade de separação.

O que os autores chamam a atenção dos pais é para que eles não cortem essa onda de história que a criança vai contar. Deixem elas falarem, podemos dizer que elas estão tentando reorganizar essa confusão na cabeça, afim de tentarem dar conta dos sentimentos. Algumas crianças, porém, podem não conseguir passar por situações difíceis com tanta facilidade, sendo necessário a ajuda dos pais para isso.

Sente-se e converse com o seu filho contando uma história. Essa história é basicamente você falar o que aconteceu em ordem cronológica, dando espaço para que a própria criança conte certas partes. Isso fará com que ela dê um nome para suas angustias.

Exemplo do livro dessa técnica

No livro temos vários exemplos desse tipo de situação. Vou pegar um que comentei anteriormente, da pequena garota que ficou doente na escola.

Retomando então, ela gostava de ir para a escola, porém um dia ela ficou doente e o pai foi imediatamente chamado para a buscasse. Assim que melhor, a garota passou a temer que ir a escola faria algo ruim acontecer, a deixando ansiosa. Para poder organizar melhor os acontecimentos e mostrar a filha de que aquilo não era um bicho papão, o pai dela precisou se sentar e conversar com a garota.

“A forma como fez isso ajudou-a a contar uma história sobre o que havia acontecido naquele dia para que ela pudesse usar os dois lados do cérebro juntos. Ele lhe disse:
– Sei que está tendo dificuldades em ir à escola desde que ficou doente. Vamos tentar nos lembrar do dia em que você passou mal na escola. Primeiro, nós nos arrumamos para ir para a escola, não foi? Lembra que você quis vestir sua calça vermelha, nós comemos waffles com mirtilos e depois você escovou os dentes? Nós chegamos à escola, demos um abraço e nos despedimos. Você começou a desenhar na mesa de atividades e eu acenei para você. Então o que aconteceu depois de eu ir embora?
Katie respondeu que se sentiu mal. Thomas continuou:
– Sim. Sei que isso não foi legal, né? Mas daí a professora cuidou muito bem de você e soube que você precisava do papai. Então, ela me ligou e fui para lá imediatamente. Não foi muita sorte ter uma professora que cuidou de você até o papai chegar? Daí o que aconteceu? Eu cuidei de você e você se sentiu melhor – Então Thomas enfatizou que foi para a escola imediatamente, tudo ficou bem e garantiu a Katie que sempre estaria lá quando ela precisasse dele.”

O que é preciso evitar

Quando uma criança passa por um momento intenso, ela estará inundada de emoções descontroladas. Valide essa emoções. Não é porque o que ela passou pareça bobo para você, que para ela também será. Não é, é verdadeiro, está causando angustia, caso contrario ela não estaria com um comportamento triste ou raivoso.

Deixe que ela conte a história para que posicione seus sentimentos no contexto exato, para que possa compreender que ao fim de tudo, não há com o que se preocupar. Mas uma coisa é importante, que os pais prestem atenção se a criança está de fato pronta ou não para falar sobre aquilo.

Algumas crianças podem precisar que sejam acalmadas primeiro, respeitando o seu tempo certo de falar sobre o assunto. Por exemplo, dois irmãos que brigam a ponto de se baterem. Não brigue com eles, ou arregalar os olhos e dar tapinhas na mão deles. Você não está ajudando eles a se acalmarem ou ensinando que o que fez foi errado, mas aumentando a raiva que ele está sentindo, e dando a entender que aquela raiva não é bem vinda.

Mas sim, ela é bem vinda – afinal somos humanos, e infelizmente sentimos raiva de vez em quando. O que você quer ensinar a ele, é que bater no irmão mais novo, não é uma atitude legal, pois pode machucá-lo.

Iniciar um longo discurso sobre como a violência é ruim, tampouco será bem vinda nesse momento. A criança está com raiva, com sentimentos fora do controle da razão. Dependendo da situação, a primeira coisa que – pode ser – feita é separá-los para que se acalmem. Em seguida, se agache e acaricie suas costas, tente não passar nenhum olhar de raiva ou de tristeza.

Se a criança começar a contar o que aconteceu, escute atentamente. Entenda que para ela é tudo uma bagunça naquele momento. “Então seu irmão tentou pegar o seu brinquedo, e você se sentiu como?” “Eu fiquei bravo, não gostei dele ter tirado de mim quando eu tava brincando” “quando sentiu raiva, então o que você fez?” “eu bati nele” “e depois o que aconteceu?”…e assim vai até chegar o momento em que você dirá que bater no irmão pode ter machucado, feito o outro ficar chateado com o consigo, e que isso não é ideal de se fazer.

Conexão com as crianças é essencial

É o que os autores chamam de se conectar com a criança, quando você se agacha e escuta os sentimentos da criança, é um momento de conexão. Você está recebendo o seu filho, validando seus sentimentos, dando apoio a ele – isso não significa que está dizendo a ele que seu comportamento foi correto ou não, mas sim de que independente do comportamento dele, você o ama e estará ao seu lado.

Quando essa conexão é feita, e a criança está mais calma e receptiva a te ouvir, então redirecione. Quando conversar, evite dizer “não pode se sentir bravo por uma coisa dessas”. Não é como se tivéssemos controle de todas as emoções, nem na vida adulta temos isso, explodimos em certos momentos. Para a criança a mesma coisa serve. “Você se sentiu bravo com seu irmão, mas ainda temos de ensinar a ele que não pode pegar o brinquedo dos outros sem permissão. Você aprendeu isso, e ele ainda vai aprender”.

Com a história, o assunto esgota

E se a criança contar vinte vezes a mesma história?” Ouça todas as vinte vezes, uma hora o assunto esgota por ela já ter compreendido o que aconteceu, o que ela sentiu, e como tudo se resolveu.

Temos isso até na fase adulta, as vezes precisamos repassar certas situações para que tudo se organize em nossa cabeça. Em alguns casos, pessoas fazem dessa repetição para organizar tarefas do dia a dia. Não sei se posso dizer que isso tenha algo haver com ansiedade, depende de cada caso, mas comumente é a necessidade de ter controle da situação.

Para as crianças essas história precisam ser contadas, refletidas, e você como adulto/pais/responsável/terapeuta, pode ser o facilitador desse momento.

Outros meios de se aplicar essa técnica terapêutica

Se a criança não quiser falar sobre o ocorrido, mesmo com você estimulando, então respeite. As vezes ela pode contar a história, elaborando os fatos de outras maneiras.

Dentre elas tem os desenhos ou conversando com alguma outra pessoa. Os autores também falam sobre conversar quando a criança estiver fazendo alguma atividade, ou distraída com outra coisa. Por exemplo, conversar com ela enquanto passeiam de carro, brincam, estejam vendo desenhos, e outras atividades.

Mas tudo o que é necessário entender é respeitar o tempo dela. Talvez seja algo que não se sinta preparada para lidar ainda.

Concluindo

Lembrando a vocês que não existe uma faixa etária para que essa técnica seja aplicada. Crianças estão em constante aprendizado, mesmo que a gente não perceba.

Tudo para elas é real e incomoda, mesmo que seja bobo para nós. E contar sobre algo que a assustou é considerada uma estratégia de redirecionamento, a fazendo raciocinar e compreender suas emoções.

Como adultos, estaremos ao lado da criança a apoiando e mostrando que nem tudo é ruim ou um bicho papão, mas que está tudo bem em ter medo ou raiva. Contar a história de uma noite mal dormida por conta do medo de monstros, pode resultar em uma conversa sobre os tipos de monstros que podem ser bonzinhos e estão apenas protegendo ela ou que são curiosos por tem medo de crianças – assistir monstros S.A. pode ser uma pedida nesses casos haha.

É um momento delicado para criança e por isso elas precisam se sentir amparadas pelas pessoas que elas mais confiam. É um ótimo momento de se conectar e apoiar um ao outro.

Espero que tenham gostado dessa dica, e recomendo a leitura do livro “O cérebro da criança” de Daniel Siegel e Tina Payne, pois é repleto de exemplos sobre compreendermos certos comportamentos das crianças. Também recomendo – e sempre irei recomendar – o livro dos mesmos autores, chamado “Disciplina sem drama”.

Vejo vocês no próximo post 😉

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